Teve um tempo em que leite era Parmalat, sabão era Omo e refrigerante era Coca-Cola.

Essas marcas ocupavam espaço na cabeça das pessoas de um jeito brutal — não por acaso, mas por décadas de investimento pesado em mídia, embalagem e repetição.

O branding era um jogo de escala.

E só quem tinha muito dinheiro jogava.

Esse jogo acabou.

E não foi devagar — foi uma virada.

Hoje, qualquer pessoa com um celular constrói audiência. E com audiência, constrói marca.

O peso saiu do logo e foi pra pessoa.

E as empresas já perceberam isso. Algumas estão surfando. Outras ainda nem entenderam o que aconteceu.

Antes de falar da virada: o que branding realmente é

Muito do que se chama de branding não é.

Ana Couto — uma das maiores referências do tema no Brasil, com 30 anos construindo marcas como Natura, Havaianas, Itaú e Arezzo — define assim:

Branding é a gestão do que a marca É, do que ela Faz e do que ela Fala.

Não é logo. Não é campanha. Não é identidade visual.

É a gestão contínua do valor intangível de uma organização — alinhando marca, negócio e comunicação ao mesmo tempo.

Três dimensões:

É — Quem a marca é. Personalidade, propósito, posicionamento. O código genético.

Faz — O que a marca entrega. Produto, proposta de valor, experiência real.

Fala — Como a marca se comunica. Narrativa, presença, tom.

Branding forte é quando os três estão alinhados. Branding fraco é quando um deles contradiz os outros.

E aqui está o ponto que muda tudo:

A grande virada que vivemos não quebrou essa lógica. Ela só mudou quem executa cada dimensão.

A Grande Virada: do Logo pra Pessoa

Por muito tempo, branding era sobre ativos estáticos: logo, slogan, embalagem, comercial de TV.

A lógica era simples: quem aparece mais, ganha.

Funcionava porque os canais eram limitados. Quem comprava horário nobre na Globo comprava atenção.

O logo tentava carregar os três — era o É, o Faz e o Fala ao mesmo tempo.

Hoje não.

Hoje o consumidor escolhe o que quer ver.

E nesse cenário, repetição de logo não constrói mais nada sozinha.

O que constrói é relação.

E relação se constrói com gente.

É por isso que aquela ideia do Tom Peters lá em 1997 virou realidade:

Você é sua própria marca.

Na época parecia conceitual. Hoje é literal.

Os Logos Estão Ficando Mais Simples — E Isso Não É Estética

Repara: os logos estão cada vez mais simples.

Google simplificou. Burger King voltou ao visual antigo. Airbnb, Mastercard, Warner Bros.… todos na mesma direção.

Menos detalhe. Mais legibilidade.

Isso não é tendência de design.

É estratégia.

O logo perdeu protagonismo porque ele perdeu função. Ele não precisa mais carregar o É, o Faz e o Fala sozinho.

Hoje, quem carrega o peso da marca é quem aparece — fundador, CEO, creator, atleta.

A marca virou fundo. A pessoa virou frente.

Toguro: Quando a Pessoa É a Marca

Toguro é o exemplo mais puro disso.

Ele não construiu uma empresa primeiro.

Ele construiu uma persona.

Veja pelos três pilares:

É: território claro — treino, lifestyle, provocação. Nunca saiu disso.

Faz: conteúdo consistente que reforça a mesma ideia todo dia.

Fala: linguagem própria, sem agência, sem campanha, sem mídia paga.

Os três alinhados.

Resultado? Ele ocupa mais espaço mental que muita marca de suplemento que gasta milhões.

Lição direta:

  • Nicho ganha de genérico
  • Consistência ganha de campanha
  • Personalidade ganha de perfeição

Mansão Maromba: Quando a Marca Nasce da Pessoa

Mansão Maromba é o próximo nível.

Aqui não é mais só uma pessoa.

É um universo.

Comunidade, conteúdo, estética, identidade.

As pessoas não assistem.

Elas pertencem.

E isso muda tudo — porque pertencimento cria algo que dinheiro não compra: lealdade.

O mais interessante nos três pilares:

É: identidade forte, construída antes da marca formal existir.

Faz: o produto principal não é suplemento ou roupa — é pertencimento.

Fala: a comunicação é a própria comunidade. O público fala pela marca.

A marca não precisou nascer perfeita. Ela já nasceu forte — porque veio de uma audiência que já confiava.

A ordem inverteu:

Antes: marca → público Agora: público → marca

João Adibe + Cimed: O Jogo Chegou no Corporativo

João Adibe Marques entendeu o jogo.

E jogou.

Ele não é influencer. É CEO.

Mas se posiciona, aparece, fala direto com o público.

Nos três pilares:

É: o CEO assumiu publicamente o posicionamento da marca — e a empresa acompanhou.

Faz: comunicação mais leve, produto mais presente culturalmente.

Fala: o CEO virou o principal canal da marca. Rosto, voz e narrativa.

Hoje, muita gente confia na Cimed porque confia nele.

Simples assim.

O ponto-chave:

A confiança da pessoa transfere pro produto mais rápido que qualquer campanha.

Porque valor de marca, como Ana Couto define, é que nem crédito no banco. Você vai precisar dele na hora de crise — e o problema é entrar no negativo.

Adibe está construindo crédito todo dia.

A Nova Regra do Jogo

O que esses casos mostram?

Branding hoje é a mesma coisa que sempre foi: gestão do É, do Faz e do Fala.

O que mudou é que uma pessoa consegue executar os três com um celular.

E quando faz isso com consistência, ocupa o espaço que marcas milionárias deixaram vazio.

A Parmalat dominava pela repetição do Fala. Hoje, alguém domina pelo alinhamento dos três.

E alinhamento ganha de repetição.

Sempre ganhou.

Como Jogar Esse Jogo Agora

Se você é pessoa

Você já é uma marca. A diferença é se está fazendo isso com estratégia ou no automático.

Define:

  • É: O que você representa. Qual é o seu território.
  • Faz: Pra quem você entrega valor. Qual é a sua promessa real.
  • Fala: Como você se comunica. Qual é o seu tom.

Sustenta os três todo dia.

Se você é líder

Parar de aparecer não é opção. É decisão estratégica — e geralmente errada.

Seu rosto carrega o É da empresa. Sua presença constrói o Fala. Sua entrega valida o Faz.

Use esse ativo.

Se você é empresa

Olha pro teu branding com honestidade:

Será que teu logo tá tentando fazer o É, o Faz e o Fala sozinho?

Se estiver, você já ficou pra trás.

Marca forte hoje é suporte. Não protagonista.

Conclusão

O branding não morreu.

Ele só mudou de lugar.

Saiu do logo. Foi pra pessoa.

Mas a lógica continua a mesma: quem alinha o que é, o que faz e o que fala — constrói valor real.

E quem entender isso rápido vai ocupar o espaço que as grandes marcas deixaram vazio.

Sem mídia de massa. Sem jingle. Sem depender de ninguém.

Só com presença, consistência e posicionamento.

E isso, hoje, vale mais do que qualquer logo.

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